Os seus pensamentos e comportamentos são mesmo seus?
Bem, possível, é. Entretanto, é uma tarefa desafiadora, pois, para pensarmos quem somos no mundo, qual imagem passamos ou persona que representamos, precisamos avaliar diversos fatores.
Vale lembrar que desempenhamos diversos papéis socias, dentre eles o de filho (a), profissional, namorado(a), amigo(a) e em cada um desses lugares de ser, somos uma pessoa diferente, porém, com a mesma base histórica que nos constitui.
A primeira dessa base formadora, está no núcleo familiar. É dai que saem nossas primeira impressões do mundo: o que é certo e errado, o que deve ou não ser feito, o que de nós é esperado.
Aprofundando um pouco mais nisso, chegamos ao raciocínio que "nada vem do nada". Logo, seus medos, traumas, impedimentos psíquicos, crenças limitantes etc. já estavam ai no mundo antes de você chegar. E de onde vieram? De seus pais, avós, bisavós, tataravós e por ai vai.
Muitas de nossas crenças provém de ideias que não são genuinamente nossas, mas foram passadas a nós através de nossa carga genética, nossa ancestralidade.
Vou dar um exemplo: hoje você pode ser uma mulher super independente e desconstruída, que consegue trabalhar e ter seu dinheiro, sustentar sua casa e seus luxos, porém, e as raízes desse troco?
Como é a relação de sua mãe com o dinheiro? Como sua avó podia lidar com as questões relacionadas ao seu desenvolvimento humano e profissional? Existia, na época delas, essa permissão para ser livre?
Outro exemplo estrutural que pode ser citado: você pode ser um homem que tem ideias de igualdade entre os gêneros, apoia a divisão de tarefas domésticas entre o casal, defensor de ideias progressistas em relação as mulheres no mercado de trabalho. Mas, como pensava o seu pai a respeito disso? E o seu avô, tinha o mesmo pensamento que o seu?
Tanto num exemplo, como no outro, por mais que queiramos ser diferentes das gerações que nos antecederam e mesmo que tenhamos ideias que julgamos mais adequadas ao mundo atual e mais livres, trazemos, em nosso inconsciente, ideias contrárias ao que defendemos hoje.
Se você é a mulher do exemplo, pode se sentir confusa, ao se deparar com a necessidade temporária de parar de trabalhar para cuidar dos filhos pequenos.
Veja, há duas de você nesse contexto: a mulher que é independente e luta por seus objetivos, versos, a mulher que precisa (ainda que temporariamente) abdicar de sua vida profissional ou diminuir o ritmo, por uma necessidade imposta pela chegada da maternidade.
Essa conflito irá correr sua mente e a deixará paralisada, tirando suas forças.
Uma mulher, quer a liberdade, a outra, se vê obrigada a fazer o que sua mãe, avó e bisavós fizeram: deixar de trabalhar para cuidar dos afazeres domésticos.
A angústia pode tomar conta de você ao passar por isso, pois, o que gostaria de fazer é quebrar os padrões, mas, o que precisa fazer, é justamente manter o padrão que lutou tanto contra.
No exemplo dois, no caso dos homens, a ideia é a mesma. Existe um antagonismo entre ser o homem desconstruído e parceiro, sem preconceitos e sem atitudes machistas, versos, o homem que mantém o mesmo padrão de seus ancestrais, sendo o provedor da casa enquanto a mulher fica em casa.
Perceba: não estou julgando nenhuma das situações, apensas ilustro fatos que percebo de forma recorrente no dia-a-dia do atendimento clínico. Lutamos, diariamente, com o nosso passado, nossas raízes, o que fizeram antes de nós, mas, mesmo assim, em algum momento, nos vemos presos a esses mesmos padrões, repetindo-os.
Agora, depois desse blábláblá todo (risos), pergunto: é possível termos comportamentos diferentes de nossos pais, completamente apartados da criação que tivemos e dos valores que recebemos?
Como disse antes, sim, é possível, porém, isso irá requerer uma boa dose de autoconhecimento e um longo processo de analise desse contexto, com muitos enfrentamentos de nossos traumas de infância ou de marcas trazidas por nossos ancestrais, que ainda ferem nosso sistema familiar e que carregamos sem saber.
Num mundo ideal de saúde mental em dia (se é que posso chamar assim), o individuo conhece duas dores, marcas e sombras primeiro, depois, em outro momento, passa a fazer as pazes com esse histórico, para, só então, "curar-se", deixando com a ancestralidade o que é deles e ficando somente com aquilo que é seu.
Assim, antes de saber o que é seu, precisará enfrentar os porões da alma, para limpar tudo que ali está e identificar o que não é seu. Logo, só chegará a essa etapa, aquele que puder fazer um intenso e profundo mergulho nas águas do próprio inconsciente, tirando dali, tudo aquilo que não foi olhado por gerações e que vinha arrastando (por honra e amor a sues ancestrais) as dores que são deles.
Como chegar a isso? Bem, primeiro trazendo a consciência o que está no inconsciente, através a psicoterapia, depois, para olhar de maneira mais efetiva para o que não é seu e devolver a quem de direito, indico algumas centenas de constelações familiares, na medida do seu possível. E porque não digo uma constelação apenas? Pois, a medida que avança em seu processo, cada vez mais, descobre algo para desemaranhar no seu sistema.
Assim, depois que o primeiro fio é desenrolado nesse novelo, outros se apresentam para que você repita o processo.
É isso, hoje ficamos por aqui, continuaremos o papo nos próximos posts.
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