“Vai fundo, você está no caminho certo!”


Daí você acorda um dia e se pergunta: “como é que eu vim parar aqui?” Olhei para minha vida e tomei um susto. Tenho muitas coisas para agradecer, sem dúvidas, e melhor seria pensar somente nelas, mas, não parei para analisar as coisas porque está tudo “dando certo”, talvez se tivesse tudo exatamente do jeito que eu queria eu não estivesse escrevendo agora, mas, sei lá.

Ainda agora me pergunto: “onde é que eu vim parar?” Vamos fazendo escolhas aqui e ali e cada escolha nos leva a um ou mais caminhos.A verdade é que não sei bem onde me perdi, mas sei que ao me perder, também me encontrei.

Sabe quando você acorda e não reconhece onde está? Cara! Que lugar é esse? E ai você só tem um resposta: não sei bem, mas sei que não é mais o meu lugar. Ontem era, hoje não me reconheço mais aqui.

Não é uma questão de estudo não, sei lá, é algo de não me identificar mais com nada disso. Comecei a perceber que não aguentava (que palavra forte, mas é a que sinceramente me veio a mente), que não aguentava mais o Direito quando ainda estava na pós-graduação, mas, como não somos educados para perder tempo, demoramos a admitir que talvez tenhamos feito uma escolha não tão certa assim para nossa vida, para nossa carreira.

Me entediava com profundas discussões sobre Processo Civil, estava ali, mas já não queria mais estar. Pensei um dia na aula: “de que adianta estudar procedimentos, regras, leis, nada disso que está sendo dito me interessa mais, tudo tão frio, quero saber das pessoas, de seus sentimentos, como posso ajudá-las efetivamente” nesse momento percebi que algo em mim estava mudando. E isso foi pouco tempo depois de me formar, me formei em 2007 e fiz a pós em 2009.

Porém, ainda não foi nessa hora que tive coragem de mudar realmente. Nesse período ainda estava só com as indagações que fazia a mim mesma, mas já percebia que algo estava mudando em mim, mas o que?

Não somos ensinados a mudar, assim, do nada, ainda mais se aparentemente você tem um futuro brilhante pela frente naquilo que escolheu, sempre se esforçou, sempre tirou boas notas e mais do que isso, sempre amou aquilo que escolheu, talvez, justamente por isso tenha sido tão difícil reconhecer que não era mais o que eu queria.

Aquilo, por mais promissor que pudesse parecer, por mais brilhante que eu fosse, aquilo não me fazia mais feliz, talvez nunca tenha feito, não sei dizer.

Porém, o que aconteceu é que um belo dia resolvi mudar. Foi difícil, pois a mudança não vem com manual de instrução, vamos aprendendo a cada dia com ela. Aos poucos, logo após o primeiro passo que é admitir a si mesmo que está no caminho errado, você passa a ouvir o seu coração e ele te mostra a direção.

Mas, antes de ter coragem para mudar e admitir que não estava seguindo bem o caminho que queria, ainda insisti mais um pouco, comecei a estudar para um difícil concurso público, para a magistratura, queria ser juíza naquele tempo.

Enfiei a cara nos livros, comprei um bom material, estudei, estudei e estudei e no meio do caminho, fiquei estafada. A pressão que gira em torno de quem estuda para um concurso desses é muito grande, só quem passa por isso sabe como é.

Um dia, não sei bem quando, disse para mim mesma: “não tenho mais certeza se quero investir ainda mais meu tempo nisso, pode ser que demore mais um ou dois, ou cinco anos para eu passar no concurso e ser juíza, mas a questão é um pouco mais complexa do que o tempo gasto, agora, nesse momento, estou questionando se é isso mesmo que eu quero, pois, para investir mais tempo e dinheiro nisso eu preciso ter certeza que é o que eu quero”.

Pensei por mais um tempo, estudei por mais um tempo e admiti que não era mais o que eu queria. Pareceu loucura, tive medo de estar fugindo pela dificuldade de alcançar esse objetivo, mas, não teve jeito, não era isso, no fundo, no mais profundo do meu ser, em meu íntimo, eu sabia que não era mais o que eu queria para mim. E não tinha nada a ver com a dificuldade ou tempo, se eu realmente quisesse persistiria o tempo que fosse, porém não era isso. 

Eu realmente não queria mais estar ali. Não era mais o meu objetivo me ver presa num gabinete, ganhando um valor supostamente alto para o cargo, mas que não me traria a felicidade. Percebi que queria ser livre e não ficar presa aos muros de um gabinete, por mais pompa que isso tivesse, por mais bonito e nobre que fosse, não era mais a minha verdade. Tenho certeza que seria uma excelente juíza, porém, para fazer isso eu precisaria estar feliz com a escolha.

É verdade que no passado eu quis, me dediquei, sempre fui boa aluna, pois, realmente era o que eu queria antes, mas, isso era antes. Não foi fácil admitir que eu queria mudar. Vem aquela cobrança interna: “mas e o tempo investido até agora? Afinal, foram muitos anos investidos, entrei na faculdade em 2.001, de lá pra cá são 15 anos no total, né? Vou "perder" esse tempo investido? Pensei comigo.

Então, ao invés de responder essa pergunta, eu me fiz outra: “o que fazer o resto da vida? Ficarei condenada a fazer algo que não quero mais, única e exclusivamente porque escolhi no passado e agora tenho que continuar para “não perder” esses 15 anos de investimento intelectual, temporal, financeiro?” E cheguei a conclusão que não valia a pena continuar e ser infeliz só porque eu já tinha investido nisso.

Tomei coragem e mudei o rumo. Me matriculei na faculdade de Psicologia. Hoje estou no quarto semestre da faculdade, faltam mais seis semestres. Tive coragem de ter um novo começo e não me arrependo. Estou feliz, pois, passei a ouvir mais o meu eu interior, o que eu quero, o que eu preciso, o que me deixa feliz. 

Não seria justo comigo me condenar a ser infeliz só porque já se passaram alguns anos. E dai? Porque investi um tempo nisso não posso querer mudar? Claro que posso! A vida é minha! Nossa! Que libertador reconhecer isso! Ufa! O que falta muitas vezes é coragem, mas quando ela existe, você faz o que tem que ser feito e pronto!

Realmente isso não é mais o que me anima a levantar todas as manhãs. Não é mais o que me motiva a estudar, mesmo sendo uma estudiosa compulsiva. Amo estudar! Sempre amei. E uns dos primeiros sinais de que eu não queria mais nada com o Direito foi justamente esse, perdi o prazer de estudar sobre o assunto. 

Quem me conhece de verdade sabe do que estou falando, eu realmente amava e me dedicava a estudar sobre o Direito, mas, como disse, num belo dia, sem que eu percebesse, esse amor sumiu, mudou, transformou-se e eu passei a exercer a minha profissão de uma forma técnica, quase que automaticamente, sem amor, sem vontade, mais porque “já tava ai mesmo” e perder o brilho no olhar ao estudar, para mim, é algo muito sério.

É preciso quebrar paradigmas! Ouvi certa vez de um querido amigo. O que equivale a dizer: "pensar fora da caixinha", né?

Não foi fácil admitir isso a mim mesmo, mas, quando criei coragem, o fiz e, só então, fui compartilhar com as pessoas que amo sobre a decisão de mudar. Felizmente todos me apoiaram, lógico que houve um estranhamento e de certa forma até indignação e desconfiança, natural, como eu disse, eu amava o Direito antes e talvez, se fossem apostar no passado em qualquer um que largaria o Direito, seja na faculdade, na pós, nos escritórios em que trabalhei ou entre conhecidos, provavelmente o meu nome seria o último da lista dos apostadores, talvez eu mesma não apostaria nisso antes, mas, como somos seres mutantes, estamos em constante transformações, e graças a Deus por isso, hoje eu resolvi mudar.

Algumas pessoas não ousam trocar de emprego (não to falando de profissão, de emprego mesmo, na mesma área) e ficam a vida inteira reclamando do empregador e infelizes. Outras não tem coragem de mudar o corte do cabelo. Conheço algumas que ficam trancadas em escritórios, com um emprego seguro e formal, quando, na verdade, sua alma pede para ela ir conhecer novos desafios, novas pessoas, outros países, fazer um intercâmbio ou morar fora. Mas, essas pessoas se contentam em viver a vidinha delas quadradinha mesmo, pois não tem coragem de viver o que realmente querem vivier.

Como é bom assumir suas escolhas! Como é bom ter um novo rumo, uma nova direção, uma nova perspectiva e não se entregar ao que já foi um dia, mas que hoje não é mais.Seja livre para escrever a sua história! Seja livre! Pense fora da caixinha, quebre paradigmas, seja feliz! Pense no que te satisfaz. Não se prenda a um título acadêmico, a um diploma ou a um crachá da empresa, se isso não te faz feliz, esquece! Mude! Realize-se.

Hoje me sinto novamente feliz, pois tive a coragem de admitir que precisava mudar, depois, eu mudei e agora estou motivada a reescrever minha história.Claro que dá um certo frio na barriga (e trabalho também). Todos os dias fazemos escolhas e temos que rever as que não nos agradam mais. 

Como eu disse, não foi fácil mudar o rumo, porém, eu precisaria de muita energia para manter algo que não me satisfazia mais em minha vida. Ao invés de continuar, preferi transformar essa energia em algo novo e decidi investir em outro sonho, que é a Psicologia e a escrita, me realizo escrevendo.

Ontem meu sonho foi o Direito, hoje não é mais. Apesar disso, nenhum conhecimento é desperdiçado, sem dúvidas a minha experiência com o Direito será útil, aliás, todos deveriam ao menos ter noções básicas de Direito, creio que deveria ser ensinado nas escolas a todos. Porém, hoje não é mais o que quero para a vida inteira. Aliás, a vida inteira é muito tempo para desperdiçar com o que não te faz feliz.

Sigo advogando por enquanto, até porque ainda levarei um tempo para me formar em Psicologia (logo, preciso esperar para atuar como psicóloga), mas hoje já não me pesa tanto o Direito como acontecia quando tomei a decisão de mudar, isso porque hoje já estou andando na estrada que me levará ao novo caminho que escolhi.

Não me prendo mais a paradigmas. Se eu quiser e Deus assim permitir, posso ter quantos diplomas eu tiver interesse em ter, sem me prender a isso ou aquilo, a rótulos e nomes. Hoje sou isso, amanhã aquilo. Não somos nada, estamos! Estamos em constante transformação. 

Então, pense fora da caixinha, quebre paradigmas, seja livre e será feliz se for fiel ao que você realmente é. Minha natureza se entristece de ficar presa a um só lugar e a uma só direção. Talvez a sua também, mas é preciso coragem para admitir isso e mudar. Não se arraste na vida. Viva! A vida é feita para ser vivida e não arrastada, como se fosse um peso.

Pode ser que você questione os porquês dessa mudança, mas eu te digo: não se preocupe com isso, só estou seguindo o meu coração, ele sabe muito bem onde preciso ir e após muitos anos sufocando os sentimentos atrás da racionalidade jurídica, reaprendi a escutar o que ele me diz e hoje ele me falou: “vai fundo, você está no caminho certo!”. Por isso, hoje sigo sem medo, na certeza de que é esse o caminho e a direção.

Ana Paixão

Comentários

  1. Oie! Voltei aqui para dizer que deu certo! Muuuuito certo, rs. Já estou trabalhando com o que amo, tenho minha clínica desde o primeiro mês de formada, comecei a atender meus pacientes assim que saiu minha inscrição no CRP, no início de 2019. Já são 4 anos fazendo o que realmente amo e me realiza. Ah! Só pra completar, nesse período, as transformações foram tão intensas em minha vida, que não só fiz essa transição de carreira, como me divorciei, mudei de casa e tive coragem de morar sozinha e tudo o que precisei, desde então, foi através dessa profissão nova, de Psicóloga, que consegui. Hoje vivo bem, somente com esse "trabalho", me sustento com essa profissão que meu coração escolheu. Não posso dizer que o caminho foi fácil, mas saiba, você que leu esse texto e comentário: valeu a pena cada decisão que tomei em direção a mudança. Vale a pena! Lute, você também, pelos seus sonhos

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